Eu que era adolescente na década de 80 (também uma época de crises) penso que pertenço à geração do “desenrasca”. Quando terminei o 9º ano fui confrontado com a dificuldade de prosseguir estudo por razões económicas e familiares.
Optei por me “desenrascar” e entrei num dos primeiros cursos profissionais que a escola secundária na altura proporcionava. Foi a minha primeira decisão pessoal importante, e confesso que me tirou algumas noites de sono. Não parei, fiz um ano lectivo de teoria e seis meses de estágio numa empresa da região.
Ao contrário de alguns colegas que fizeram o estágio em empresas e organismos públicos da região, não tive a sorte de ser integrado na empresa em que estagiei. Fiquei alguns meses parado mas já à procura de emprego, tinha na altura 17 anos. Consegui um emprego como escriturário num gabinete de advogados, que me pagavam metade do salário mínimo da altura sem recibos nem descontos. “Desenrasquei-me” e consegui retomar os estudos à noite e concluir o 12º ano. Foram anos difíceis: a ganhar pouco e a trabalhar à noite, e ainda por cima sem o apoio dos meus pais que me diziam que era tonto. Para quê estudar mais se já tinha emprego?
Não desisti! Fui acumulando os estudos com o trabalho e com os cursos que o Fundo Social Europeu foi realizando e financiando nessa década, pois sempre fui da opinião de que o saber não ocupa lugar. Já no inicio da década de noventa, e depois de ter feito não sei quantas provas e entrevistas para bancos, seguradoras, empresas, etc… consegui, através de um anúncio de jornal, um emprego numa empresa de comércio internacional, como assistente administrativo.
Hoje passados mais de vinte anos tive um trajecto de vida sempre ascendente, pois confiei nas minhas capacidades, estive sempre receptivo a adquirir novos conhecimentos e sou hoje dono da minha própria empresa.
Fiz este breve resumo da minha vida profissional para que possam entender que esta geração “à rasca” tem agora a vida muito mais facilitada do que a minha geração. Tem a possibilidade de estudar, licenciar-se, tirar mestrados, têm carro e mesada, mas falta-lhes a capacidade do “desenrascanço”, e falta-lhes também a humildade para aceitar outros empregos que não o que estavam à espera depois de se formar.
Eles têm os pais que os podem apoiar e sustentar até aos 30 anos enquanto esperam pelo emprego ideal e se vão queixando que não conseguem emprego.
MEXAM-SE! Não fiquem a lamentar-se que não há empregos: Há muitos empregos disponíveis, mas não a ganhar o que esperam. Hoje em dia ter um canudo já não dá o estatuto e as mordomias de há 20 anos atrás… Pensem nisto. Se acham que podem fazer melhor, criem os vossos próprios empregos (o IEFP tem uma série de incentivos para isso) atrevam-se, arrisquem, mas não fiquem sentados à espera “DO EMPREGO”!
Por essa Europa fora existem muitos licenciados que têm empresas de carpintaria, de serralharia, que criam gado, que servem em cafés e restaurantes para sobreviver… porque é que em Portugal tem que ser diferente?
O MUNDO MUDOU! As cabeças dos nossos jovens que são tão “para a frente” em algumas coisas e ainda pensam como os pais: “Vamos lá tirar o curso para arranjar um emprego bem pago e ser chamado de Dr.”
DESENRASQUEM-SE meus caros.! O mundo é dos que se sabem adaptar aos novos tempos…