Sendo um cidadão comum, que se esforça por cumprir com todas as suas obrigações fiscais, a tempo e horas e sendo também um dos raros cidadãos portugueses que trata de todos os assuntos com tempo suficiente para evitar as famosas filas de espera das repartições públicas, estou absolutamente desanimado e desiludido com o (mau) funcionamento da máquina burocrática do estado.
Sei que o sistema até há pelo menos 10 anos atrás era absolutamente arcaico e rudimentar. Toda a informação patrimonial e fiscal e civil estava inscrita manualmente em calhamaços que os funcionários arrastavam com esforço para cima do balcão de atendimento, sempre que o cidadão contribuinte vinha tirar alguma certidão ou inscrever o que lhe cabia em herança, ou ainda pretendia doar, vender ou simplesmente inscrever em seu nome a propriedade que possuía desde sempre e que ainda não constava em seu nome…
Eu próprio, no âmbito de uma actividade profissional que exerci há alguns anos atrás tive oportunidade de manusear alguns desses famosos e pesados exemplares, escritos e re-escritos à mão, desde o tempo da "outra senhora".
Nos tempos de correm, na era da internet, da digitalização, do armazenamento digital de informação, da informatização em geral de todos os sectores da vida quotidiana, não entendo como se pede ainda numa instituição pública, como as finanças e a segurança social, que uma pessoa prove que está viva. Para que serve o serviço de registo civil, onde supostamente estará o registo de nascimento da pessoa em questão, e não estando averbado o seu falecimento, obviamente a pessoa continua viva. Essa pessoa tem número de contribuinte, numero de segurança social ou NISS, recebe mensalmente a sua mísera reforma pela Segurança Social, e mesmo assim, se tiver a infelicidade de não saber escrever, e necessitar de tratar de alguma assunto, como por exemplo solicitar o CSI (não confundira com a série policial da TV) ou seja o complemento solidário para idosos, e não podendo deslocar-se pelos seus próprios meios, a Segurança Social “exige” que o cidadão (independentemente da sua condição física) se apresente nos Serviços Sociais para colocar o borrão feito com o indicador direito no impresso, na presença do funcionário.
A Segurança Social não tem qualquer piedade para com o pobre cidadão, quase cego e acamada há quase uma dezena de anos, que ainda por cima sofre do coração, e obriga-o a deslocar-se, numa ambulância, quer chova a cântaros, faça uma calor tórrido ou um frio de rachar, às suas cómodas instalações, onde o cidadão não chega a entrar porque os Serviços não têm nenhuma porta que não tenha vários degraus, para que um funcionário enfastiado comprove que o senhor está vivo e possa ele mesmo por o indicador no formulário exigido…
Depois do Plano tecnológico, do Magalhães e do cartão do cidadão e dos vários portais do governo, para tratar de todos os assuntos “online” o cidadão de quase 90 anos de idade, quase cego, doente cardíaco e acamado precisa de se mostrar em pessoa na Segurança Social, para que os serviços acreditem que está vivo e que não foi mais ninguém a por o indicador no "impresso próprio"…
Isto aconteceu em Abrantes, e seguramente em outras cidades do nosso avançado país…
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